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Qu'est-ce qu'une bière artisanale ?

O que é uma cerveja artesanal?

Acabou o tempo em que apenas os hipsters urbanos se interessavam por estas bebidas de sabor por vezes estranho, em latas encontradas em pequenas caves confidenciais. A craft está agora bem estabelecida, toda a gente fala dela, e até se encontra em supermercados. Mas o que significa realmente “cerveja artesanal”? É realmente diferente do que se bebia até agora?

 

Cerveja e Revolução Industrial

 

Quando hoje se fala em cerveja artesanal, é como tradução da palavra “craft” que nos vem dos Estados Unidos. “Craft” é aquilo que se criou com as próprias mãos, com pouco equipamento (um ponto extra se for reaproveitado) e com materiais ou ingredientes naturais, até locais. E para entender por que este movimento surgiu no mundo da cerveja, é preciso recuar um pouco.


Estamos no século XIX. Partindo da Inglaterra, a Revolução Industrial modificou profundamente a economia do velho e do novo mundo com máquinas a vapor, inovações científicas e transportes de longa distância. De Londres a Plzeň (na atual República Checa), passando por Munique, descobriu-se como produzir uma cerveja mais clara, com menos teor alcoólico, que se pode conservar fresca e enviar para todo o mundo. Lúpulo na lata, o processo tornou-se mais simples, mais rápido e mais barato.


Um estilo em particular conquistou as preferências dos cervejeiros: a pilsner (de Pilsen, nome alemão desta famosa cidade de Plzeň). A pils é leve, refrescante e de uma cor dourada hipnótica, o oposto das cervejas escuras, não filtradas e com sabor torrado a que se estava habituado na época. Não é de estranhar que as vagas de imigrantes da Europa Central a tenham trazido consigo para a América! Muitos alemães, em particular, fundaram cervejarias no seu novo país. Adotaram o milho e o arroz, culturas locais, para substituir a cevada europeia de qualidade que lhes faltava, criando uma cerveja ainda mais barata de produzir e com sabor ainda mais neutro.

 

Artesanal vs industrial

 

Mas a Proibição (1919-1933) e as duas Guerras Mundiais puseram fim à abundância de cervejarias, e só as maiores resistiram e evitaram a falência. Nas décadas de 1930 e 1940, os industriais aperfeiçoaram a sua receita, tornando-a cada vez mais leve (os sabores muito pronunciados eram proibidos, pois estimulavam o prazer, então visto como um pecado) e cada vez mais barata. Surgiu a lata, e cada vez mais famílias passaram a ter frigorífico. O mesmo entusiasmo pelos televisores deu às cervejarias a ideia de comprar clubes desportivos para exibir os seus anúncios em intervalos dos jogos. E foi assim que a pils inundou os Estados Unidos da América – e o mundo.


Chegamos aos anos 1960. Em todo o mundo ocidental, surge uma contracultura em reação às consequências da Guerra Fria (ameaça nuclear, intervenção americana no Vietname…) e à economia capitalista. Nos Estados Unidos, fazer cerveja em casa (ilegal sem pagar impostos) tornou-se um ato de resistência. Novas cervejarias foram criadas por viajantes que se inspiraram em receitas descobertas no Velho Continente: cerveja branca belga, Berliner Weisse, ou ainda… India Pale Ale. A famosa IPA é, de facto, muito mais simples de produzir artesanalmente do que a pils: não necessita de fermentação a frio, e a forte dose de lúpulo que contém permite mascarar eventuais imperfeições de sabor. Lúpulos também importados da Europa para serem cultivados em solo americano, cuja qualidade e aromas contrastam com os xaropes e extratos usados pelos industriais.


Finalmente, em 1978, o Presidente Jimmy Carter assinou um decreto que isentava de impostos a produção amadora, abrindo caminho a novos adeptos que depois fundariam novas cervejarias artesanais. O objetivo deles: redescobrir a riqueza dos estilos e sabores da cerveja, graças a produtos trabalhados, com ingredientes de qualidade. E pouco a pouco, o entusiasmo também chegou à Europa.

Uma fronteira cada vez mais ténue

 

Pouco a pouco, porque no Velho Continente a cerveja é uma história de tradição. Nas regiões de cultura cervejeira como o Reino Unido, Bélgica ou Alemanha, mantém-se a ligação aos estilos antigos. No resto do território, de cultura mais vinícola, os industriais instalaram a pils (ou outra lager leve) nos bares e supermercados. Sobretudo, o impacto das duas Guerras Mundiais privou a craft de locais para se desenvolver. Em França, por exemplo, só restavam 23 cervejarias em 1976, contra 3306 em 1903 (segundo os números do Projeto Amertume de Emmanuel Gillard, a Bíblia sobre as cervejarias francesas).


Mas a bebida fermentada mais antiga do mundo é resiliente e o renascimento está em curso. Primeiro nos anos 1980, com pioneiros como a Brasserie des Deux Rivières (produtora da Coreff) ou os Trois Brasseurs (os primeiros brewpubs franceses!). Depois nas décadas de 2010 e 2020, que viram a explosão do número de cervejarias, sobretudo de pequena dimensão. Emmanuel Gillard estima que em janeiro de 2024 havia 2589 cervejarias em atividade. A tendência é então a favor de produtos locais e de qualidade, e os consumidores interessam-se cada vez mais pela craft – o que não escapa às grandes cervejarias agora qualificadas de “industriais”. Cada uma lança a sua própria IPA – ou até compra cervejarias artesanais, e a fronteira começa a tornar-se difusa entre os dois tipos de empresas.


Até hoje, não existe em França uma definição legal do que é uma cervejaria artesanal. Só o código geral dos impostos distingue as “pequenas cervejarias independentes”, que produzem menos de 200 000 hectolitros (é muito!) e que não pertencem a uma cervejaria maior. O que faz então a diferença entre a 3 Monts do norte (100 000 hl produzidos em 2021) e a Effet Papillon da Gironda (3900 hl)? E quanto aos ingredientes usados, ao impacto no território, às estratégias de marketing? O nosso conselho para o Petit Ballon? Visite a cervejaria mais próxima de si e pergunte diretamente aos mestres cervejeiros!

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Artigo escrito por Hélène et les houblons para Le Petit Ballon.

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