Por que não há vinho na Bretanha?
Há dias assim. Em que acordamos no meio da noite para nos fazer perguntas existenciais. E hoje, uma pergunta nos atormenta: por que não encontramos (ou quase não encontramos) vinho bretão?
Obrigado, romanos!
Apesar de Astérix não gostar dos romanos, foram eles que, já no século III, começaram a plantar vinhas na Bretanha. Infelizmente, as videiras produziam então apenas um vinho de má qualidade.
No entanto, a tradição perdura e podemos ver vinhas «em zonas tão diversas como Motreff, Hanvec, La Guerche, Rennes, Lanvallay, Tréguier, o vale do Rance, o Golfo do Morbihan ou Dol», relata o jornalista Gérard Alle. Estas vinhas eram principalmente mantidas por mosteiros.
Mas depois as coisas começaram a desandar. O clima arrefeceu e a filoxera causou estragos. No século XVII, perante as vinhas doentes, o famoso ministro de Luís XIV, um certo Jean-Baptiste Colbert, decidiu substituir as vinhas afetadas por macieiras, pois a procura de sidra era maior. Assim, a Bretanha tornou-se uma terra de sidra.
O vinho bretão proibido
Os anos passaram e alguns vinhateiros irreductíveis mantiveram a tradição do vinho bretão. À alvorada da Revolução, já só restavam 300 hectares de vinhas na Bretanha. Depois, nos anos 30, caiu a sentença. Para travar a sobreprodução e proteger as regiões vitivinícolas, a produção e comercialização de vinho foram proibidas nas regiões não vitivinícolas.
Esta proibição um pouco estranha, que se deve ao ONIVIN (organismo que gere a produção de vinho em França), durou até 1 de janeiro de 2016! Foi depois a União Europeia que desbloqueou a situação através de uma diretiva que autorizava novas plantações em regiões não vitivinícolas. Boom, o vinho bretão e as suas castas principais (Pinot noir, Pinot blanc, Chardonnay e Chenin) puderam voltar a existir!
A Bretanha, futuro vinhedo de ponta?
Esta boa notícia para o vinho bretão atrai também oportunidades. Perante o aquecimento global, os investidores procuram um novo eldorado. E a Bretanha reúne muitas características positivas.
«O clima vai continuar a aquecer e, daqui a 50 ou 100 anos, o clima futuro de Rennes poderá ser o de Bordéus, com alguns graus a mais do que hoje», relatava Franck Baraer, responsável pelo serviço de estudos climáticos da Météo-France, à Revue des Vins de France.
Região turística, a costa bretã dispõe assim de um clima que se regula, devido à sua proximidade com o mar. Condições ideais para a vinha, desde que os solos sejam de boa qualidade.
Enfim, será que em breve degustaremos uma AOP Côte du Morbihan ou um Château Plouha? O futuro o dirá!
Entretanto, se viver na Bretanha e conhecer iniciativas locais de vinhateiros, estamos muito curiosos para ouvir tudo isso!
NDLR: Com estas pequenas histórias sobre o vinho, não pretendemos reescrever a grande história, aquela com H maiúsculo. O que escrevemos são artigos sem rodeios, para vulgarizar o mundo do vinho. Artigos necessariamente menos completos do que um artigo de imprensa ou um trabalho académico; mas com a vontade de partilhar convosco, de forma curiosa, anedotas e pedaços de vida sobre o vinho em França e no mundo.
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